domingo, 18 de setembro de 2016

“Um único planeta contendo três sóis é uma coisa incrível.”
Apesar de sistemas solares binários serem comuns no Universo, um planeta com três ou mais sóis é uma coisa realmente inacreditável. Nolan não consegue imaginar um lugar onde a luz do dia seja constante. Três amanhecer, três entardeceres. Um ciclo de luz visível no céu aonde elas chegam a um ponto onde o entardecer de uma coincide com o amanhecer da outra. Pesquisando mais a fundo, o garoto descobre que esse fenômeno gera luz do dia quase constante durante cerca de um quarto da órbita do planeta e isto acontece no novo corpo cósmico recém-descoberto batizado de HD 131399Ab na constelação de Centauros.
Quando Nolan termina de ler todas essas informações no seu notebook, ele caminha para o quarto refletindo sobre como apresentaria o seu novo trabalho de astronomia, sua matéria preferida na escola. Já havia se arrependido de não ter lido aquele artigo ontem para que pudesse planejar melhor, e agora está eufórico demais pensando em cada detalhe do seu seminário.
Ele sobe as escadas correndo com o notebook e o caderno na mão e ao entrar no quarto, liga todas as luzes do lugar.
A paixão de Nolan por astronomia é tão grande que seu quarto azul é todo decorado com pisca-pisca de estrelinhas amarelas que, de forma fraca, iluminam o local. Nas paredes há vários desenhos de constelações e planetas que ele mesmo desenhara. Um, em especial, é o desenho de um disco voador abduzindo a silhueta de um humano no meio do deserto à noite. Aquele foi seu primeiro desenho e por isso, sua vontade de fazer uma tatuagem igual cresce a cada vez que ele olha para aquela arte.
Pela primeira vez, em meses, o menino abriu o pote de doces azedos que há em sua escravaria e se jogando na cama, mastiga fazendo careta olhando as pequenas estrelas no teto.
Será que o pessoal da escola já começou a fazer seus trabalhos? — Questionou enquanto fitava alguns rabiscos na parede. — Ou deixarão tudo pra última hora como geralmente alguns fazem?
Dez minutos já haviam se passado e ele já esta ficando impaciente sem conseguir pensar em nada sobre sua tarefa. Mesmo com a data de apresentação sendo para daqui a meses, o menino não conseguia se conformar com sua falta de inspiração e por fim termina cedendo, indo dormir para não acordar tão tarde no dia seguinte.
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Naquele dia amanheceu chuvoso.
Quando Nolan abriu seus olhos, se sentiu incomodado com a claridade que vinha da janela. Relutante, ele se levanta na tentativa de fechar as cortinas, mas um vento muito forte acaba abrindo mais as janelas do quarto. As estrelas do teto não param de balançar e se embolar em cima dele. Entre pisques e pisques de luz, a água da chuva começa a molhar aquele cômodo. Papéis começam a voar pra todo o lado e quando Nolan se aproxima mais uma vez da janela, a chuva cessa. Por alguns minutos, tudo fica escuro. O garoto já não identifica se seus olhos estão abertos ou fechados. Ele caminha assustado tentando encontrar a porta do quarto, e quando a encontra, ele abre e consegue sair da escuridão.
No entanto, não demora muitos segundos até o menino perceber que aquela não é a sua casa. O lugar parecia ser mais uma igreja antiga que sua moradia. Há vidros coloridos pra todos os lados e estantes com frascos de líquidos borbulhantes também. Assustado, Nolan para de caminhar e apenas observa toda aquela beleza arcaica que só havia contemplado em seus livros de história. Mas, observando a fundo, ele nota um pequeno templo onde um senhor de idade dorme assentado sobre um trono. Sua bengala esta apoiada em uma de suas mãos. Sua barba branca e comprida faz Nolan imaginar que o homem já passa dos oitenta anos. Em seus pés, um pequeno gato preto descansa. Aquilo não pode ser real. Nolan não consegue acreditar. E quando finalmente seus pés começam a caminhar involuntariamente, os olhos do velhinho se abrem.
— Olá? — O menino sorri relutando em se aproximar.
— Oh... — O velho diz abrindo totalmente seus olhos e ajeitando a postura naquela cadeira de madeira, verbaliza. — ...Você está atrasado, menino.
Nolan se sente confuso. — Atrasado? — Pergunta. — E para o que seria?
— Para o nosso encontro. — O senhor responde como se aquilo fosse óbvio, mas não da para entender sobre o que está falando. — Venha, aproxime-se, não temos muito tempo.
O garoto caminha para mais perto do homem. E ao ficarem à poucos centímetros de distancia, o velho sorri.
— Chegará o dia em que irão ter contato com o invisível. — Ele começa explicando Nolan de uma maneira não tão clara. — Quando este dia chegar, vocês irão descobrir que toda a vida oscila entre estes dois polos: Matéria e Espírito... Bem e Mal... Felicidade e Sofrimento. — O velhinho diz colocando as mãos nos cabelos enrolados do menino. — Toda a iniciação deve nos conduzir  da Lua ao Sol, de Isis a Osiris, da Matéria... À essência divina.
— Da Lua... Ao sol? — O garoto repete quase em sussurro ao ouvir aquilo.
Um vento forte começa a soprar novamente. Algumas gotas de chuva caem dentro do pequeno templo, fazendo com que ambos se sintam desconfortáveis.
— Pode ser que eu vá incomodá-los em breve, Nolan. — O homem diz encerrando. — Mas vai estar tudo bem com você!
Sem ao menos dar tempo de refletir sobre o que ele disse, uma tempestade começa a se formar do lado de fora e as luzes se apagam novamente. Desta vez, a ausência de luz também está levando consigo todo o oxigênio.
Nolan já não consegue mais respirar.
Quando começa a sentir o desespero dos seus pulmões gritarem por ar, o menino acorda assustado. Seus cabelos estão molhados e o seu corpo está possuído por gotas de suor incontáveis. O menino respira ofegante, agradecendo aos céus por ainda estar vivo. Não está chovendo. As estrelas do teto estão apagadas como ele deixara e tudo em seu quarto está em perfeito estado.
Aquele sonho deixou resíduos na mente de Nolan. Tudo ainda está tão claro em sua mente que o garoto não consegue mais distinguir se ainda está sonhando ou não. Ele desce as escadas para ir beber água. Sua mãe está dormindo no quarto, mas seu pai havia adormecido no sofá enquanto estudava com vários livros sobre a pequena mesinha de vidro.
O menino suspira e vai buscar sua água. Porém, antes que pudesse voltar para seu quarto, um dos livros que há na mesa o chama atenção. Sua capa é preta e apenas um símbolo em revelo pintado de tinta branca se sobressai. Um círculo e em seu centro há uma estrela enorme. As pontas das estrelas apontam para símbolos diferentes, onde dentro da estrela há outro círculo que contém o sol e acima uma lua um pouco menor. Com a curiosidade o consumindo, Nolan abre o livro e procura por algo de interessante. No entanto, seus olhos se arregalam e seu corpo se paralisa ao ver aquela imagem do velhinho de seus sonhos. No livro, diz que seu nome era Nicolas Flamel e sua morte foi em 1418.
Nolan se engasga com a água ao lembra o que Nicolas havia lhe dito em seu sonho:
“Pode ser que eu vá incomodá-los em breve...Mas vai estar tudo bem com...
VOCÊ!”